
A Associação Espírita e de Cultos Afro-brasileiros (Aecab) elaborou uma carta aberta lamentando a repercussão negativa da escultura da Mãe D’água, na Orla de Petrolina. No documento, o presidente da Associação, Jorge Rodrigues Barbosa, pede mais respeito às tradições afro-religiosas e lembra que o Brasil é um estado laico, com espaço para todas religiões e crenças.
Vejam:
“Nós, povos de terreiro da região de Petrolina (estimados em mais de 400 terreiros de candomblé, umbanda, tendas, sessões, entre outros segmentos religiosos de matriz afro-indígena), representados pela Associação Espírita e de Cultos Afro-Brasileiros (Aecab) nos sentimos extremamente ofendidos com os últimos posicionamentos a respeito da escultura do artista juazeirense Lêdo Ivo, que antes é parte das tradições ribeirinhas do São Francisco, popularmente conhecida como Iara ou Mãe D’água.
Nas religiões de matriz africana a força dos rios é cultuada como a Orixá Oxum, cuja cor é amarela, e a força das águas do mar é cultuada como Iemanjá, representada pela cor azul-celeste e branco. Muitos símbolos são colocados em praças públicas e evocam o sentido de outras religiões, a exemplo do monumento público da Bíblia, colocada em uma praça da nossa cidade, e que nós respeitamos porque todas as religiões devem ser respeitadas, pois o Estado Brasileiro é laico, conforme assegura a Constituição Federal do Brasil.
Assim, se na nossa cidade é colocado qualquer símbolo que evoque as tradições afro-religiosas brasileiras temos o direito ao mesmo tratamento e respeito. A bela escultura do grande artista juazeirense, Lêdo Ivo, independente da sua vinculação religiosa deve ser mantida na nossa cidade.
Nós, povos de terreiro, publicamente, pedimos ao nobre escultor que um dia possa agraciar nossa região com esculturas de Iemanjá e Oxum, Orixás das Águas, mas achamos bela a escultura da Mãe D’água, como também é o Nego D’água de Juazeiro.
Essa problemática relembra as polêmicas de quando foram colocadas as esculturas dos Orixás no Dique do Tororó, em Salvador, que hoje é parte do Patrimônio Cultural da Bahia.
Imaginem se tivéssemos que acabar com os símbolos que lembrem as religiões brasileiras. O que faríamos com o Cristo Redentor do Rio de Janeiro? O que faríamos com os Orixás do Dique do Tororó em Salvador? O que faríamos com o Nego D’água de Juazeiro? O que faríamos com a Bíblia Sagrada em Petrolina? O que faríamos com a escultura da Mãe D’água do Rio São Francisco? O que faríamos com a escultura do Padre Cícero em Juazeiro do Norte? A solução é apagar todos esses símbolos? Ou deixarmos para posterioridade e asseguramos o respeito a todos as religiões e tradições do nosso País?”
Jorge Rodrigues Barbosa/ presidente da Aecab
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